Perfil dos Jogadores de Apostas em Portugal: Idade, Região e Tendências

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5 Milhões de Contas: Quem Aposta Online em Portugal
No final do quarto trimestre de 2025, o mercado de jogo online português contava com perto de 5 milhões de contas registadas. Num país com cerca de 10 milhões de habitantes, isso significa – pelo menos em teoria – que uma em cada duas pessoas tem uma conta de jogo online. Na prática, o número real de apostadores únicos é inferior, porque muitos jogadores mantêm contas em vários operadores.
Ainda assim, os números são reveladores. Mais de 230 000 novas contas foram criadas só no quarto trimestre de 2025, e cerca de 1,2 milhões de jogadores estiveram ativos nesse mesmo período. O mercado não só é grande como continua a crescer – e compreender quem são estes apostadores é fundamental para entender a direção do setor.
Os dados demográficos que o SRIJ publica trimestralmente oferecem um retrato detalhado e, em muitos aspetos, surpreendente. Contrariamente à imagem estereotipada do apostador, o perfil real é mais jovem, mais urbano e mais diverso do que a maioria das pessoas assume.
Distribuição Por Idade: Jovens Dominam o Mercado
O dado mais marcante é este: 77% dos jogadores registados têm menos de 45 anos. A faixa etária dos 25 aos 34 anos, sozinha, representa 33,5% do mercado – mais de um terço de todos os apostadores.
Esta concentração nos segmentos mais jovens tem implicações diretas para o mercado. É um público digitalmente nativo, que acede às plataformas sobretudo pelo telemóvel, que valoriza a experiência de utilizador e que é particularmente sensível à oferta de funcionalidades como apostas ao vivo e live streaming.
Mas há um reverso preocupante. Entre os jogadores de 18 a 34 anos, 43% utilizam plataformas ilegais – uma percentagem superior à média geral de 40%. Os mais jovens são simultaneamente o segmento mais ativo do mercado regulado e o mais vulnerável à oferta ilegal, frequentemente canalizada através de redes sociais e influenciadores.
Ricardo Domingues, presidente da APAJO, tem relacionado esta realidade com a maturação do mercado, observando que os dados do terceiro trimestre de 2025 confirmaram a expectativa do setor de uma desaceleração do crescimento justificada pelo amadurecimento do mercado. O desafio é que este amadurecimento não abrange os canais ilegais, que continuam a recrutar entre as faixas etárias mais jovens sem qualquer filtro.
Para o apostador individual, a relevância destes dados é contextual. Saber que o mercado é dominado por jovens adultos ajuda a compreender porque os operadores investem mais em experiência móvel do que em versões desktop, porque os bónus são estruturados como são e porque a comunicação dos operadores privilegia canais digitais.
Distribuição Geográfica: Lisboa, Porto e o Resto do País
Não é surpresa que Lisboa e Porto concentrem a maior parte dos registos – mas a dimensão dessa concentração é notável. O distrito de Lisboa representa 21,7% do total de jogadores registados, seguido pelo Porto com 21,1%. Juntos, quase metade do mercado está nestes dois distritos.
A distribuição geográfica acompanha, em traços largos, a distribuição populacional e de rendimento do país. As zonas urbanas do litoral têm maior penetração de jogo online; o interior e as regiões rurais, menor. Isto reflete não apenas diferenças de acesso à internet – que em 2026 são marginais – mas sobretudo diferenças culturais e socioeconómicas.
Para o analista, há um dado menos comentado que considero relevante: a concentração geográfica dos jogadores pode influenciar a forma como os operadores estruturam a sua oferta. Um mercado dominado por Lisboa e Porto é um mercado urbano, com acesso facilitado a eventos desportivos presenciais e maior exposição a publicidade. As estratégias dos operadores refletem este perfil – o que pode significar que apostadores de outras regiões são menos bem servidos em termos de oferta e comunicação.
O SRIJ publica estes dados regionais nos seus relatórios trimestrais, e vale a pena acompanhá-los para quem quer compreender como o mercado evolui fora dos grandes centros.
Há um fenómeno adicional que merece menção: a concentração de jogadores em zonas costeiras acompanha a concentração de infraestrutura digital e de serviços financeiros. Zonas com maior penetração de MB Way e de serviços bancários digitais tendem a ter mais jogadores registados – o que faz sentido, já que o acesso ao jogo online depende diretamente da facilidade de pagamento.
Nacionalidade Estrangeira: O Peso dos Jogadores Brasileiros
Se há um dado que sistematicamente surpreende quem analisa o mercado português pela primeira vez, é a proporção de jogadores com nacionalidade brasileira. Entre 48,5% e 49,3% do total de registos de nacionalidade estrangeira pertencem a jogadores brasileiros – praticamente metade de todos os estrangeiros no mercado.
Este fenómeno reflete a dimensão da comunidade brasileira residente em Portugal, que cresceu significativamente nos últimos anos. Para estes jogadores, as plataformas licenciadas em Portugal representam o mercado legal disponível – e muitos trazem hábitos de apostas do Brasil, onde o mercado foi regulado mais recentemente e com características diferentes.
A implicação para o mercado é dupla. Por um lado, aumenta a base de jogadores e a receita dos operadores. Por outro, cria desafios específicos de comunicação e proteção do jogador – as ferramentas de jogo responsável e a informação regulatória precisam de estar acessíveis e compreensíveis para um público que pode não estar familiarizado com o enquadramento legal português.
Para os operadores, esta demografia representa uma oportunidade comercial significativa. Para o regulador, representa um desafio de proteção que vai além da língua – envolve compreender expectativas e hábitos de jogo que podem diferir substancialmente entre o público português nativo e o público brasileiro residente. Uma visão mais ampla do mercado está disponível no artigo dedicado aos números do mercado.