Influenciadores e Apostas Ilegais em Portugal: O Problema da Publicidade Não Regulada

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42% dos Jogadores Ilegais Chegam Por Amigos e Influenciadores
De todos os dados que analiso sobre o mercado de apostas em Portugal, este é dos mais reveladores: 42,1% dos utilizadores de plataformas ilegais chegaram lá através de recomendações de amigos ou influenciadores. As redes sociais, por si só, representam 36,8% dos canais de acesso ao jogo ilegal. Não é uma franja – é o principal canal de recrutamento.
A mecânica é tão eficaz quanto simples. Um influenciador com audiência jovem publica um vídeo a mostrar ganhos em determinada plataforma. Partilha um código promocional. Os seguidores registam-se, depositam dinheiro, e ficam presos num ecossistema sem licença, sem regulação e sem qualquer proteção. Tudo isto acontece à luz do dia, em plataformas públicas, com milhares de visualizações.
Entre os jogadores mais jovens – dos 18 aos 34 anos – a percentagem que utiliza plataformas ilegais sobe para 43%. É precisamente esta faixa etária que mais consome conteúdo de influenciadores, criando uma sobreposição perfeita entre o público-alvo e o canal de distribuição.
Como Funcionam as Campanhas de Influenciadores Ilegais
Pedro Hubert, coordenador do Instituto de Apoio ao Jogador, já foi claro nesta matéria: a publicidade e o aliciamento por influencers em sites ilegais aumentam o risco de comportamento patológico, uma vez que estes sites operam sem qualquer regulação ou regras de jogo responsável. É uma avaliação que, na minha experiência acompanhando este fenómeno, é absolutamente precisa.
As campanhas seguem um modelo previsível. O influenciador recebe uma comissão por cada jogador que se regista e deposita através do seu código. Os valores destas comissões são frequentemente superiores ao que os operadores legais podem oferecer – precisamente porque os sites ilegais não pagam impostos, não investem em ferramentas de proteção e não cumprem qualquer regulamentação.
O conteúdo é desenhado para parecer autêntico. Não são anúncios tradicionais – são stories, reels, vídeos de “dia a dia” onde o influenciador mostra casualmente as suas apostas. A impressão que transmite é de um conselho de amigo, não de publicidade. E é essa informalidade que torna o canal tão eficaz e tão perigoso.
Há ainda o fenómeno dos “tipsters” nas redes sociais – contas que oferecem previsões de apostas e direcionam os seguidores para plataformas específicas em troca de comissões. Muitos operam sob pseudónimo, sem qualquer credencial verificável, e desaparecem quando os resultados não correspondem às promessas. O dano financeiro e emocional para os seguidores é real e frequentemente silencioso.
A APAJO já apresentou queixas contra mais de 30 influenciadores que promovem plataformas ilegais. Ricardo Domingues, presidente da associação, tem sido frontal ao afirmar que a situação é conhecida, que as queixas foram apresentadas e que existiram investigações – mas que nenhuma acusação formal foi deduzida publicamente. Nas palavras dele, “é caso para dizer que o crime compensa”.
Redes Sociais Como Canal de Acesso ao Jogo Ilegal
O Instagram, o TikTok e o YouTube são os três palcos principais desta dinâmica. A moderação de conteúdo relacionado com jogo varia entre plataformas, mas nenhuma delas conseguiu – ou priorizou – eliminar eficazmente a promoção de operadores ilegais dirigida ao público português.
O TikTok é particularmente problemático por dois motivos. Primeiro, o formato de vídeo curto permite disseminar conteúdo promocional de forma viral em horas. Segundo, o público da plataforma é mais jovem – o que aumenta a exposição de menores a conteúdo de apostas, apesar de os menores estarem legalmente proibidos de apostar.
No Instagram, os stories e reels com códigos promocionais para sites ilegais surgem frequentemente em contas com dezenas ou centenas de milhares de seguidores. A efemeridade dos stories – que desaparecem em 24 horas – dificulta a documentação e a ação regulatória.
As plataformas de redes sociais têm políticas contra publicidade de jogo não regulado, mas a aplicação dessas políticas é inconsistente. Contas denunciadas podem ser removidas, mas reaparecem com nomes ligeiramente diferentes dias depois. É um ciclo que o regulador e os operadores legais têm dificuldade em quebrar com os instrumentos atuais.
Um fenómeno particularmente insidioso é o uso de grupos de Telegram e WhatsApp para distribuir links de plataformas ilegais. Estes canais são privados, difíceis de monitorizar e funcionam como câmaras de eco onde os ganhos são celebrados e as perdas ignoradas. Para o jovem apostador que entra neste ecossistema, a perceção de risco é artificialmente baixa – e quando se apercebe do problema, os danos já estão feitos.
Ações Judiciais e Resultados: O Que a APAJO Já Fez
A APAJO tem sido a entidade mais vocal no combate à promoção de jogo ilegal por influenciadores. Para além das queixas contra mais de 30 influenciadores, a associação tem pressionado publicamente por uma resposta mais musculada das autoridades judiciais e regulatórias.
Os resultados, até ao momento, têm ficado aquém do desejado pelo setor. O enquadramento legal para punir a promoção de jogo ilegal existe – é um ato sancionável ao abrigo da legislação do jogo online. Mas a tradução deste enquadramento em ações judiciais concretas com consequências visíveis tem sido lenta.
Há uma tensão evidente entre a velocidade do problema e a velocidade da resposta. Os influenciadores adaptam-se em dias – mudam de conta, mudam de plataforma, mudam de site promovido. O sistema judicial opera em meses ou anos. Enquanto esta assimetria existir, o impacto dissuasor das ações legais será limitado.
Para o apostador, a mensagem prática é clara: qualquer recomendação de casa de apostas que chegue através de um influenciador deve ser verificada contra o registo do SRIJ. Se o site recomendado não constar na lista de entidades licenciadas, não é legal em Portugal – independentemente de quantos seguidores tem quem o promove. Para uma análise mais ampla do fenómeno do jogo ilegal em Portugal, vale a pena consultar o artigo dedicado aos riscos das casas de apostas ilegais.