História das Apostas Online em Portugal: De 2015 ao Mercado Atual

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Dez Anos de Mercado Regulado: O Caminho Percorrido
Em 2024, o mercado de jogo online em Portugal ultrapassou a marca de mil milhões de euros de receita bruta anual. Quando comecei a acompanhar o setor em 2017, essa cifra parecia uma fantasia – o mercado era jovem, os operadores eram poucos e a desconfiança do público era grande. Dez anos depois da regulamentação, o percurso é uma lição sobre o que acontece quando um mercado é construído com base legal sólida, mesmo que imperfeita.
A história das apostas online em Portugal é, no fundo, a história de uma transição: de um mercado inteiramente não regulado – onde operadores internacionais aceitavam apostas de portugueses sem qualquer enquadramento legal – para um sistema licenciado, fiscalizado e tributado. Esta transição não foi suave, não foi rápida e não está completa. Mas aconteceu.
O Decreto-Lei 66/2015: O Marco Regulatório
Tudo começa com o DL 66/2015 – o Regime Jurídico do Jogo Online. Publicado em 29 de abril de 2015, este diploma criou o enquadramento legal para a exploração de jogos de fortuna ou azar e apostas desportivas à cota em plataformas online. Antes dele, o jogo online em Portugal existia num vazio jurídico – não era explicitamente ilegal para o jogador, mas nenhum operador tinha autorização formal para o oferecer.
O objetivo declarado do RJO, nas palavras do próprio SRIJ, foi proporcionar competitividade ao mercado português, entendendo-se que só assim seria possível reduzir o jogo online ilegal. É uma filosofia regulatória que privilegia a canalização – criar um mercado legal suficientemente atrativo para que os jogadores migrem voluntariamente do ilegal.
O diploma definiu os requisitos para obtenção de licença, as obrigações dos operadores, o modelo fiscal (IEJO), as regras de proteção ao jogador e os mecanismos de combate ao jogo ilegal. Foi um enquadramento ambicioso – talvez demasiado, dizem os críticos – mas que estabeleceu as fundações sobre as quais o mercado se construiu.
Um aspeto que merece destaque é a opção por um mercado aberto com licenciamento. Portugal não limitou o número de licenças disponíveis – qualquer empresa que cumprisse os requisitos podia candidatar-se. Esta abertura contrasta com modelos mais restritivos adotados por outros países europeus e foi fundamental para criar a competição entre operadores que hoje beneficia o apostador.
As Primeiras Licenças e a Consolidação do Mercado
As primeiras licenças foram emitidas em 2016. Lembro-me de acompanhar os anúncios com a expectativa de quem assiste ao nascimento de algo novo – porque era exatamente isso. O mercado regulado de jogo online em Portugal não existia antes desse momento.
Os primeiros anos foram de estabelecimento. Os operadores investiram em plataformas, em marketing e na construção de base de clientes. Os jogadores aprenderam a navegar o novo ecossistema – verificação de identidade, limites de depósito, regras que não existiam no mercado não regulado a que estavam habituados.
A consolidação foi gradual. Hoje, Portugal conta com 18 entidades licenciadas que operam 32 plataformas ativas – um crescimento significativo desde as primeiras licenças, embora inferior ao que alguns antecipavam. O processo de licenciamento exigente do SRIJ funciona como filtro de qualidade, impedindo a entrada de operadores sem a capacidade financeira e técnica necessária.
Ao longo destes anos, houve também saídas. Operadores que obtiveram licença e depois decidiram abandonar o mercado por razões comerciais, ou que viram a licença suspensa por incumprimento. O mercado não é estático – é um ecossistema vivo onde entram e saem participantes conforme as condições de mercado e regulatórias evoluem.
A relação entre o número de operadores e a qualidade da concorrência merece reflexão. Dezoito entidades podem parecer poucas comparadas com mercados mais abertos, mas num país da dimensão de Portugal, a concentração permite que cada operador atinja escala suficiente para investir em produto – plataformas melhores, mais mercados, funcionalidades como cash out e live streaming que exigem investimento tecnológico significativo.
De Centenas de Milhões a Mil Milhões: A Curva de Crescimento
A trajetória financeira do mercado português é impressionante quando vista em perspetiva. Os primeiros anos completos de operação geraram receitas brutas na ordem das centenas de milhões. O crescimento acelerou-se de forma consistente, impulsionado pela expansão da base de jogadores, pela melhoria das plataformas e pela normalização cultural do jogo online.
O marco simbólico chegou em 2024: receita bruta anual superior a mil milhões de euros, com um crescimento de 42% face ao ano anterior. No quarto trimestre de 2025, o recorde trimestral foi renovado com 337,6 milhões de euros – confirmando que, apesar da desaceleração natural de um mercado em maturação, a tendência de crescimento se mantém.
Os fatores que impulsionaram este crescimento são múltiplos: a popularização dos smartphones como ponto de acesso principal, a introdução do MB Way como método de pagamento rápido e acessível, a melhoria contínua das plataformas dos operadores, o aumento da oferta de mercados e funcionalidades (cash out, live streaming), e a atração natural de uma população jovem e digitalmente ativa.
A pandemia de 2020-2021 acelerou uma tendência que já existia. Com os eventos desportivos temporariamente suspensos e depois retomados com acesso limitado aos estádios, o canal online ganhou relevância como forma primária de ligação ao desporto. Muitos jogadores que descobriram as apostas online nesse período mantiveram-se no mercado – e o crescimento pós-pandemia confirmou que a migração para o digital era estrutural, não conjuntural.
O que o crescimento não conseguiu – e este é o paradoxo central do mercado português – foi reduzir significativamente a participação no jogo ilegal. Com 40% dos jogadores a utilizar plataformas sem licença, o mercado regulado cresceu em termos absolutos mas não conseguiu captar toda a procura. O desafio para a próxima década é tão claro como o da primeira: tornar o mercado legal a escolha óbvia. O guia completo sobre casas de apostas online em Portugal aborda esta questão em profundidade.